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Viviany Beleboni 'crucificada' na Parada Gay (Foto: REUTERS/Joao Castellano )Tenho ciência de que muitos já falaram sobre a polêmica envolvendo a “crucificação” de um transexual na parada gay de 2015 em São Paulo. Aliás, desde o ocorrido, muitas “águas rolaram por debaixo da ponte”. E ainda há um pouco mais acredito eu, porque polêmica dá trabalho para deixar de ser polêmica.

Já que todos tem manifestado (ou manifestaram) sua opinião sobre o ocorrido, acho que também posso fazê-lo, já que vivemos em uma democracia – ao menos é o que esperamos que seja.

Pretendo não me alongar muito, portanto, vamos lá!

A tal “crucificação” foi vista por muitos cristãos, sejam católicos ou protestantes, como uma ofensa à fé cristã. De fato, inúmeros cristãos se sentiram ofendidos com o tal ato. Aqueles que pregam em alta voz, aos berros e que dizem lutar pela família brasileira e valores cristãos, prontamente responderam à altura. Pois ofensas do lado de cá, e do lado de lá, vem acontecendo não é de hoje – sejamos sinceros.

Cristãos se indignaram. Muitos postaram e protestaram nas redes sociais comentando a “crucificação” com algumas palavras, a exemplo de: “Estou indignado”; “Isto é blasfêmia”. E houve até alguns que foram até mais longe, rogando a Deus que enviasse fogo do céu. Estes gostariam de ter a vingança do Todo-Poderoso; e melhor ainda se ela viesse acompanhada de “sabor de mel”.

Confesso que quando via imagem na internet meus sentimentos foram mistos de tristeza, dor, espanto e, sim, uma certa indignação. Mas daí pensei alguns minutos depois: “Indignação. Porquê eu deveria me indignar? E o que isso significa?”

Uma rápida busca no dicionário Michaelis Online trás as seguintes definições abaixo; e por favor, tenha paciência comigo pois logo vou chegar aonde pretendo, mas para tanto acho necessário explicar estes termos.

indignar
in.dig.nar
(lat indignari) vtd 1 Causar indignação a; indispor, revoltar: A injustiça indignou-o. vpr 2 Sentir indignação, irar-se, revoltar-se: “Ouvindo isto os dez, começaram a indignar-se contra Tiago e João” (Evangelho segundo São Marcos, 10, 41 – trad. do Pe. Matos Soares). vpr 3 Não se dignar; dedignar-se: “Indignou-se de assinar a petição” (Laud. Freire).

A palavra indignar, tem o prefixo latino in que denota sentido contrário, privação, negação.¹ Portanto, ela é o contrário de dignar. E dignar significa:

dignar
dig.nar
(lat dignari) vpr Condescender em, haver por bem, ser servido, ter a bondade de: S. Exa. não se dignou de ouvir-nos. Com elipse da preposição de: Dignou-se a autoridade ouvir as declarações do indiciado. Usa-se como fórmula de deferência: Digne-se V. Exa. aceitar as nossas homenagens.

Todas estas palavras estão relacionadas também ao adjetivo digno que tem por significado: 1 Merecedor. 2 Habilitado. 3 Capaz. 4 Honrado. 5 Que convém; apropriado, acomodado, conforme: Resposta digna da pergunta. 6 Exemplar: Homem digno. 7 Que vale a pena. 8 Ilustre. Antônimo (acepções 1, 3, 4, 6 e 8): indigno.

A conclusão que pode-se se chegar é que sentir indignação é sentir que sua dignidade foi violada, e portanto esta pessoa se sente no direito de indignar-se, irar-se ou revoltar-se contra o ato que provocou tal sentimento.

Mas um cristão deve indignar-se? Penso que sim e não. Sim, com relação à certas situações ou momentos como por exemplo: injustiças sociais, violências, assassinatos. Indignar-se quanto ao seu direito de ter um trabalho digno que posso lhe render um salário justo pelo trabalho realizado. E para isso, ele pode manifestar sua indignação perante seu sindicato, sua classe trabalhista, seu chefe, inclusive. Greves existem porque muitos indignam-se por conta de salários péssimos e condições de trabalho que chegam ser desumanos muitas vezes. Mas perceba que estas coisas não são exclusivas apenas à uma classe de pessoas. Não são apenas cristãos que podem se indignar com estas coisas, mas qualquer um, de qualquer lugar; não importando raça, credo ou etnia. Esses são apenas alguns exemplos.

Então o que difere de fato? Onde quero chegar? É que, penso eu, um cristão não deveria se indignar se alguém ultraja a sua fé, se alguém zomba dela, se alguém escarnece dela. Porquê? Por que a fé cristã anda na contramão do sistema e ela é repleta de promessas e advertências do próprio Deus de que cristãos por conta da sua fé em Cristo – que é o Autor desta Fé – seriam perseguidos e sofreriam por amor a Ele.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.” Mateus 5:10-12

Mas, talvez alguém pense que deveria se indignar, pois é uma ofensa contra o direito de exercer, professar e ter liberdade de crença. Nesta linha de pensamento, muitos cristãos ficaram ofendidos, pois o seu direito de exercer, professar e crer no que creem foi ultrajado, foi desmerecido, foi desonrado.

Entretanto, a fé cristã, independente de onde esteja sendo professada ou tenha liberdade ou não de exercício, nunca foi bem aceita. O centro da sua mensagem é Cristo e Sua Cruz, e esta mensagem é escândalo. (Gálatas 5.11; 1 Coríntios 1.23).

Se a dignidade de Cristo foi ultrajada? Sim! Há mais de dois mil anos. O Filho do Homem se entregou, se humilhou, se esvaziou até à morte de cruz. (Fp. 2.5-8). Se aqueles que cometeram tal ato, zombaram do nome de Deus e do Seu Filho prestarão contas? Sim, as Escrituras deixam claro. Um dia, sim! (1 Pe. 4.3-5).

Em toda a história, cristãos foram ridicularizados, humilhados, perseguidos, mortos ao fio da espada, zombados, escarnecidos por causa da sua fé, pura e simplesmente. E esta fé que eles têm, deve-se não à dignidade deles como seres humanos para tê-la, mas unicamente daquele que é o Autor dela. Não se deve à dignidade daqueles que a portam, anunciam ou professam. Não devemos nos gloriar em tê-la. Ao contrário, devemos ser humildes, pois em nós não havia dignidade alguma para que fossemos alvos do amor de Deus.

Inclusive o termo cristão, criado e dito pela primeira vez na cidade de Antioquia, era um termo pejorativo, de humilhação. É importante notar que não vemos nenhum relato de que os cristãos se sentiram indignados por isso. Eles acabaram adotando este termo para si.

Pedro nos exorta inclusive que, se alguém sofre como cristão, por ser um cristão deve se gloriar.

“Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremete em negócios alheios;Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte”. 1 Pedro 4:15-16

Em outra parte ele diz: Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente;” 1 Pedro 2.21-23

O mundo repudia Cristo, pois está morto espiritualmente. Aqueles que vivem zombando, não são piores do que nós, e nós não somos melhores do que eles, pois todos são pecadores. Todos igualmente carecem da graça de Deus, e todos precisam se arrepender dos seus pecados e crer em Cristo igualmente para sua salvação.

Ao ver aquela imagem senti vontade de me indignar. Mas voltei atrás. Porque eu não sou digno de carregar o nome de Cristo e professar a fé, cujo autor é o próprio Cristo. Mas se hoje o faço e professo esta fé, está fundamentada unicamente em Sua Graça.

Eu não devo me indignar como cristão, se minha fé tem sido aos olhos naturais ofendida. Pois o Reino de Cristo não é deste mundo. Meu lar não é aqui. Eu sou peregrino em terra estranha.

Bispo Walter McAlister comentou sabiamente no Facebook:

“Muitos querem que a igreja volte a ser o que foi no primeiro século. Mas não querem que o mundo os trate como a tratou no primeiro século.”

O pastor Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) disse certa vez:

“Se Cristo leva uma coroa de espinhos, ambicionaremos uma coroa de laurel?”

Concluo dizendo que é privilégio do crente sofrer por amor a Cristo, ser zombado por amor a Cristo, por ter coragem de se expor e dizer que crê em Cristo. Por isso não se indigne se alguém fizer chacota, quiser provocar ou até cometer sacrilégios. A fé cristã genuína é transcendente. Vai além dos que os olhos podem ver.

Soli Deo Glória

Anderson Alcides.

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