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Por Walter McAlister

A Reforma Protestante do século 16 aconteceu após pelo menos duzentos anos de tremores internos da Igreja. Como só havia uma opção no Ocidente — a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) —, os que viam verdades sendo esquecidas, ensinamentos dos pais da Igreja sendo ignorados, concílios sendo reformados e contraditos e as Escrituras mantidas longe dos fiéis (e até de padres, se a verdade for dita), finalmente tinham de optar pelo martírio ou algo igualmente ruim.

Esta diferença não aconteceu num vácuo, certamente. Houve um cansaço da parte dos príncipes germânicos. Queriam se ver livres do jugo de Roma, da ingerência papal sobre os seus reinos, condados e regiões. Queriam se ver livres dos tributos devidos à Sé papal. Houve uma convergência de fatores para desencadear a Reforma Protestante. E que convergência fortuita foi essa!

Mas a verdade é que, antes que houvesse Lutero, Zuínglio ou Calvino, houve aqueles que prepararam o caminho, como os Valdenses, Bernard de Clairvaux, o Concílio de Constância (1415), William Tyndale e Jan Hus. O poder centralizador do Papa não existiu naquele período sem clamores por reforma e renovação. Claro que esses clamores foram enfrentados com martírio individual e, em alguns casos, coletivo. O que transcorreu, porém, veio de uma pressão da igreja de dentro para fora.

Não havia outra igreja. Os fiéis não podiam simplesmente mudar de denominação. Não havia para onde ir. Não havia opção. Mais ainda, não havia certeza de que haveria salvação fora da igreja. De Cipriano a Agostinho, a afirmação audaz da Igreja sempre foi que “ninguém podia ter Deus como pai se não tivesse a Igreja como mãe”. Essa afirmação tem fundamento, pois a vida espiritual por certo não é uma jornada solitária. Mas não há uma só igreja no mundo, pelo menos no sentido institucional (não importa o que Roma afirme). Desculpem-me os fiéis da ICAR, mas, mesmo com o seu vigor renovado, rebocado pela simpatia e a simplicidade do Papa Francisco, ainda assim é preciso entender que a Igreja não se restringe aos quadros da ICAR.

Hoje ouvimos vozes de pessoas que nutrem uma profunda visão crítica acerca de como a igreja se manifesta em nossos dias. Não escondo que eu sou uma delas. Mas não se trata mais de um monolito a ser reformado. Hoje somos uma igreja pulverizada, espatifada em mil pedaços. Se alguém enxerga o erro, tem uma opção na esquina seguinte.

Não creio que veremos uma reforma, tal qual a que aconteceu no século 16, veremos algo diferente. Já vemos a falência iminente de algumas igrejas. Vão morrer uma morte merecida, por terem se aproveitado da boa-fé de fiéis imensamente carentes de bons pastores. Vão morrer às mãos de déspotas que só vão sobreviver enquanto os seus fundadores permanecerem vivos. Depois da sua morte, serão a carniça de inúmeros líderes de rapina.

Mas a Igreja continuará. Viverá. Só que o que há de viver? Teremos de voltar às bases. Teremos de voltar ao Evangelho. Dizem que Lutero não devolveu as Escrituras à Igreja tanto quanto devolveu o Evangelho às Escrituras. Quem sabe precisaremos devolver o Evangelho à própria Igreja? Certamente, teremos de tomar decisões sérias e até radicais. Caso contrário, a próxima geração não terá para onde se virar.

O meu coração anseia por uma Igreja viva, séria, segura e piedosa. O meu coração busca ver jovens que estejam dispostos a pagar o preço do verdadeiro discipulado e da verdadeira devocionalidade. Estamos vivendo tempos de grandes trevas na Igreja e no Ocidente. Os bárbaros batem às portas. Os magnatas da mídia lançam sortes para ver quem fica com a túnica da Igreja. As pedras clamam. Os anjos choram. Quem dobrará os joelhos para chorar pela Igreja?

Na paz,

+W

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Walter McAlister é Bispo Primaz da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida e escreve em seu portal Walter McAlister.

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