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Por Maurício Zágari

Imagine a cena: você está orando quando, subitamente, o Senhor Todo-Poderoso aparece em meio a um grande clarão de luz e lhe diz: “A partir de hoje até o dia de sua morte nunca mais te darei uma bênção sequer”. Recado dado, o Altíssimo desaparece e ali fica você, com cara de espanto, talvez com lágrimas nos olhos. É como se tivesse recebido a sentença de Ezequias. E daí em diante você repara que Deus não te concede mais nenhum favor, nenhuma benção, nenhum benefício, nada, nada, nada. A minha pergunta seria: ainda assim você continuaria a louvá-lo, adorá-lo e servi-lo como faz hoje? Continuaria evangelizando do mesmo modo, pregando da mesma maneira e sendo exatamente o mesmo tipo de cristão que é hoje?

Pois, sejamos honestos, uma ENORME parcela da nossa adoração é fruto daquilo que recebemos e esperamos receber de Deus. “Senhor, me ajuda…”, “Deus, preciso disso e daquilo…”, “Pai , seja feita a tua vontade, só que a minha é essa assim e assado”. Sim. Uma gigantesca parte da nossa relação com Cristo são pedidos de vitória, clamores em prol do que precisamos, súplicas por necessidades. E aí vem Ele e diz que não vai mais atender a  absolutamente mais nada disso. Que não vai mais te abençoar, te conceder mais nenhuma resposta de oração. E aí, como é que fica?

Pois se tiramos da nossa relação com Deus aquilo que Ele pode nos dar, o que sobra? A resposta: unicamente seu Ser. Isso significa que a partir daquele dia todo o nosso  relaciomento com o Criador passaria a ser exclusivamente de reconhecimento de quem Ele é. Não haveria mais pedidos. Não haveria mais súplicas. Não dobraríamos mais nossos joelhos para rogar por socorro, mas apenas para exaltar Seu poder, Sua grandeza, Sua soberania, Sua justiça, Seu amor, Seus feitos, Seu tudo.

A questão aqui é: isso bastaria a você? Vocé continuaria sendo cristão com o mesmo fervor? Continuaria anunciando o Evangelho com o mesmo amor e a mesma devoção? Aí você, que é tão santarrão como eu, teria a reação imediata de estufar o peito, bater nele como um gorilão e afirmar: “Sim!!!! Pois a Sua graça me basta!!!! Meu relacionamento com Deus independe do que Ele me dá, eu amo Jesus e isso me basta!!!!“.

Mas, na prática…

Pense bem. Hoje, se você pede algo ao Senhor e Ele não te dá, no mínimo você fica lá, se lamuriando… “Por quê, ó Deus!?!? O que retém a tua mão? Mimimi…”. Pense só num exemplo: namoro. Você que é solteiro, quantas vezes já orou a Deus pedindo que enviasse “o teu prometido”, “a tua Rebeca”, “o escolhido”, “a tua bêncao”? Provavelmente dezenas. E, sem que ninguém nos ouça, você ficou um tanto chateado com o Criador por essa demora, pois, o que custava mandar logo um namorado pra você? Tanta gente da sua igreja já até se casou e você está ali esperando. “Poxa, Deus, por quê?!?!”. Sim, nós cobramos de Deus Suas bênçãos e nos chateamos quando elas não vêm ou demoram, isso acontece com TODOS nós.

Agora imagine-se com esse anseio e sem que o Altíssimo atendesse “até o dia de tua morte” o que você pede. Tudo bem? Dá pra levar na boa?

Ou então você fica doente e ora por cura. Hoje sua oração por isso é fervorosa, diante da perspectiva de um milagre. Mas…. E diante da perspectiva de “A partir de hoje até o dia de sua morte nunca mais te darei uma bênção sequer“?  Tudo continua igual? Você diz “amém” e segue adorando, amando e glorificando esse Deus que não te dá mais nada, que não vai mover uma palha pra te curar?

Não sejamos hipócritas. Diante dessa perspectiva haveria um esvaziamento violento das igrejas. Muitas “comunidades” em lares desapareceriam, muitos cultos em igrejas tradicionais passaria  a contar com apenas cinco ou seis pessoas (isso se o pastor aparecesse para celebrar), uma enorme quantidade de templos neopentecostais onde a Teologia da Prosperidade e a heresia da Confissão Positiva são a tônica fechariam as portas. O povo ia cuidar da vida e correr atrás daquilo que pragmaticamente pudesse resolver seus problemas e assim obter o que precisa. Afinal, quem quer saber de um Deus que não nos dá nada? Quem quer saber de um Deus cuja única razão de ser é ser adorado e exaltado por sua essência, por seus atributos, por seu… Ser?

Claro que esse exercício de imaginação é uma impossibilidade. Agrada a Deus abençoar Seus filhos. Sua graça comum abençoa até os ímpios. O Sol brilha para todos e a chuva cai sobre justos e injustos. O Senhor é rico em abençoar e tem prazer em dar pão, peixe, maná e vida aos Seus. Mas pensar nessa possibilidade impossível que propus acima nos conduz a um exercício no mínimo de humildade, nos leva a avaliar nossas motivações e, quem sabe, nos traz mais para perto do propósito maior de Deus ter nos criado: Sua glória.

Pois Deus nos abençoa, mas não foi para isso que nos criou, foi para Sua glória. Deus nos concede alimento, mas não foi para isso que nos criou, foi para Sua glória. Deus nos dá muito mais do que merecemos, mas não foi para isso que nos criou, foi para Sua glória. Deus tem infinito prazer em responder às lágrimas de gratidão de seu povo por favores e milagres recebidos mas, ainda assim, não foi para isso que nos criou.

Foi para Sua glória: “De longe tragam os meus filhos, e dos confins da terra as minhas filhas; todo o que é chamado pelo meu nome, a quem criei para a minha glória, a quem formei e fiz” (Is 43.6,7).

Glória a Deus nas alturas, vindo ou não aquilo que lhe pedimos, glória a Deus nas alturas. Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra! Tu, cuja glória é cantada nos céus.  Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Atribuam ao Senhor, ó seres celestiais, atribuam ao Senhor glória e força. Atribuam ao Senhor a glória que o seu nome merece; adorem o Senhor no esplendor do seu santuário. Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus! Sobre toda a terra esteja a tua glória! Deem ao Senhor, ó famílias das nações, deem ao Senhor glória e força. Os céus proclamam a sua justiça, e todos os povos contemplam a sua glória. Perdure para sempre a glória do Senhor! O Senhor está exaltado acima de todas as nações; e acima dos céus está a sua glória. Deem glória, pois, ao Senhor no oriente, e nas ilhas do mar exaltem o nome do Senhor, o Deus de Israel. Teu é o Reino, o poder e a glória para sempre! Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Sim, ao único Deus sábio seja dada glória para todo o sempre, por meio de Jesus Cristo. A ele seja a glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre! A nosso Deus e Pai seja a glória para todo o sempre. Ao Rei eterno, o Deus único, imortal e invisível, sejam honra e glória para todo o sempre. Em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre. Ao único Deus, nosso Salvador, sejam glória, majestade, poder e autoridade, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, antes de todos os tempos, agora e para todo o sempre! Tu, Senhor e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram criadas. Digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor! Àquele que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o poder, para todo o sempre! Louvor e glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força sejam ao nosso Deus para todo o sempre. Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória! Bendito seja o seu glorioso nome para sempre; encha-se toda a terra da sua glória. Amém e amém. (Todas as frases deste parágrafo foram tiradas ipsis literis da Bíblia)

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Maurício Zágari, é jornalista, escritor, téologo e escreve em seu blog Apenas.

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