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Por Walter McAlister

Com uma frequência cada vez maior, observo que a nossa juventude cristã está sendo desvirtuada da verdadeira missão da Igreja. Em vez de fazer o que Jesus nos chamou para fazer, é levada para um ativismo que nada tem a ver com a proclamação do Evangelho. No intuito de “fazer uma diferença” há jovens sendo conclamados para participar de campanhas, carregar cartazes e ir às praças, denunciando o que há de mal, de errado e de corrupto na sua cidade, no governo e no país. Um exemplo recente foi o megaevento chamado Rio+20, em que houve grupos identificados como cristãos que protestaram contra o abuso do meio ambiente e coisas dessa linha.

Há alguns meses me desliguei de um grupo criado com a bela intenção de promover a união na Igreja – algo importante, fundamental e urgente. Eu me envolvi, acreditando que caminharíamos rumo ao espiritual e suas implicações, à definição de uma identidade entre os diversos grupos que há na chamada Igreja evangélica (protestante) do Brasil de nossos dias e outros aspectos que estão faltando em nosso meio. Mas, com o tempo, esse grupo emitiu manifestos “contra aumentos abusivos dos salários dos nossos representantes federais”, como também sobre “a posição evangélica vis-a-vis o avanço agressivo da agenda política dos homoafetivos”. Em cada uma dessas instâncias, ouvi ser dito o seguinte: “A Igreja precisa exercer o seu papel profético na sociedade”.

Deixe-me fazer algumas considerações acerca dessa visão equivocada sobre o que vem a ser um papel profético e como ele é exercido.

O profeta é alguém que fala em nome de Deus. Ele traz uma mensagem do Senhor para os homens com o seguinte aviso: a terra é do Altíssimo e todos os que praticarem o mal serão julgados por Ele. Para que a voz seja de fato profética, quem fala tem que se pronunciar em nome de Deus e citando as suas palavras, com os devidos avisos de juízo divino. Em nenhum momento a voz profética se limita a denunciar o mal. Ao vasculhar as Escrituras, vemos que todos os profetas transmitiram mensagens claramente fundamentadas na aliança entre Deus e o seu povo. Mesmo quando profetas proferiram mensagens de juízo a países vizinhos a Israel, elas tiveram como base o fato de toda a terra pertencer a Deus, em virtude do fato de Ele tudo ter criado. Portanto os habitantes, reis, generais e outros iriam prestar contas a Deus por seus abusos, suas atrocidades e seus pecados.

Há alguns paladinos da justiça que vêm recrutando nossos jovens para suas campanhas públicas. Pergunto o porquê de não falar claramente num tom que remeta ao Evangelho. A resposta é sempre que os povos deste mundo não entendem a linguagem “bíblica” e, portanto, precisam ser movidos por argumentos mais humanistas. O apelo é sempre para o que seria “humano”, “direito”, ou “razoável”. Só que a voz profética não tem como base a razão, tampouco o humanismo e muito menos o direito democrático. A voz profética se define por ser um recado de Deus para os homens. Exclusivamente isso e com todas as letras.

Então, sem a clara expressão das máximas bíblicas, com as devidas repreensões e avisos, essa “voz” tem outro nome: política.

 “Política é a aquisição e o uso de poder”: essa definição é uma citação direta de um deputado federal que afirma ser evangélico, emitida durante uma reunião na qual estive presente. Pois bem, em se tratando de manifestações públicas, há dois poderes em jogo. O primeiro é o poder da massa. Se a manifestação conseguir mobilizar muitos, então certamente atrairá a atenção de políticos que ou ficarão interessados em usar os que conseguem mobilizar tantos ou ficarão atemorizados pela mesma razão. Mas há um segundo poder sendo empregado. É o poder da mídia. Tanto que ela é chamada de “o quarto poder”. Além dos três poderes (executivo, legislativo, e judiciário), existe esse quarto poder, que realmente exerce influência avassaladora sobre o imaginário coletivo. A mídia tem o seu poder maior em nossos dias concentrado na televisão. Isso pode mudar com o advento da internet. Mas ainda é uma ficha muito forte no jogo de poder. Claro que mídia também compreende jornais, revistas e, não vamos nos esquecer, da rádio.

Muitos grupos aproveitam grandes eventos e de expressão internacional para protestar. E aqui vem mais uma questão que separa e distingue a voz profética das outras: ela sempre fala contra o que todos concordam ser razoável. A voz profética não faz coro com outras vozes. Isso porque sua origem não está no inconformismo com o status quo. Não parte de uma revolta com a situação calamitosa e podre da sociedade ou do Estado. Nada disso: a voz profética, necessariamente, nasce das Escrituras e de um imperativo proclamatório muito claro.

Muitos citam exemplos veterotestamentários para robustecer a sua campanha de protesto político. Só que os profetas do Antigo Testamento foram levantados para falar aos reis de Israel e, consequentemente, para o povo de Deus, que tinha se afastado da aliança feita entre o Todo-Poderoso e os israelitas. Assim, vemos que toda voz profética é pautada por uma chamada de volta à aliança. A própria apresentação de Deus foi: “Eu sou o Senhor, seu Deus, que lhes tirou do Egito”. Ou seja, quem vos fala é quem vos salvou.

Outros argumentam em favor da mistura com a política usando o exemplo de Daniel como profeta aos povos estrangeiros. Mas poucos lembram dos detalhes. Daniel foi levado ao cativeiro na Babilônia e, como membro da elite de Israel, foi forçado atuar perto do rei. Suas ações foram pautadas por insistir em servir ao Senhor somente e não se curvar perante as exigências de Nabucodonosor. Sua desobediência civil foi limitada a seu culto a Deus, pelo qual foi lançado aos leões.

Há ainda os que citam “heróis” modernos: Martin Luther King é um dos prediletos. King, um homem negro, foi campeão da causa da sua raça em prol de igualdade de tratamento racial. O fato de ele ter sido pastor é citado como exemplo do que “homens de Deus devem fazer”. Mas sua condição de líder civil não foi uma função ministerial e sim cívica. Usá-lo como exemplo de um bom pastor é uma falácia (post hoc ergo propter hoc – ou seja, um fato é necessariamente consequência do que o antecede).

Sei que há inúmeros jovens cujo idealismo está sendo inspirado para tentar corrigir os males da nossa sociedade. Mas a nossa proclamação não é no sentido de mudar o mundo. Somos chamados para sermos pescadores de homens. Somos chamados para proclamar que Cristo salva quem é escravo do pecado (Mc 16.15; Mt 10.27; 28.19). Somos chamados para orar para o Senhor da seara, para que ele mande mais trabalhadores (Mt 9.38; Lc 10.2). Somos luz e sal, por definição. Luz brilha com o que Deus fez e não com o que os homens pecaminosos deveriam fazer, pelo seu bom procedimento. Sal preserva a terra e impede que o juízo de Deus venha de vez. Veja exatamente o que Jesus disse, logo após as bem-aventuranças:

Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus. (Mt 5.14-16) [ênfase minha]

Veja que o resultado de proclamação não é forçar homens maus a agir como cristãos sem serem cristãos, mas a se render a Deus com louvor. E o que leva os homens a louvar, adorar e glorificar o Senhor? Não é revolta ou protesto, mas pureza e vidas que brilham.

No seu julgamento, Jesus falou, com todas as letras: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui” (Jo 18.36). Após a liberação de Pedro e João da prisão, os que estavam reunidos oraram: “Agora, Senhor, considera as ameaças deles e capacita os teus servos para anunciarem a tua palavra corajosamente” (At 4.29).

Dedicar as nossas vidas à proclamação do Reino de Deus não é alienação ou omissão. É a escolha mais corajosa. O plano de salvação é mais poderoso do que qualquer manifesto político. Não falta quem irá aplaudir uma igreja “relevante”. O difícil é levar a mensagem que o mundo rejeita – todo o mundo. Não fomos chamados para fazer o que um não cristão faria. Fomos chamados para fazer aquilo que só quem é salvo pela graça de Cristo é capaz de fazer.

Na paz,

+W

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Paz a todos,

Anderson Alcides.

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