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Reflexões, ponderações, análises nunca foram e nunca serão demais na vida do ser humano. Paciência, momentos a sós, “ruminar” leituras e pensamentos são importantíssimos para aprendermos algo. Principalmente na era do fast food, instantaneidade, onde as informações não correm, voam à “velocidade do Concord.”

Tenho aprendido que investir tempo em analisar, estudar, refletir, pensar mais um pouco, e quando acho que estou pensando muito ou já aprendi, penso ainda mais. Nunca será demais. E assim, tenho refletido sobre muitas coisas, em especial sobre a sã doutrina, sobre ensinos nos arraiais evangélicos, sobre teologias de toda a sorte.

Então se tiver um pouco de paciência, pondere um pouco sobre o que vou dizer nas linhas abaixo. Será um pouco extenso, portanto se não gosta muito de leituras, creio que será fatigante, mas te desafiaria a ir em frente. Só tenha paciência, ok?!

Pois bem, nestas reflexões ruminantes (quase redundante), uma questão especial é sobre a prosperidade do crente. E as perguntas que sempre vêem a mente são: Até que ponto o crente pode prosperar? O crente pode ser rico? É saudável para a vida espiritual? Deus quer que todos sejam ricos, baseado no versículo de que Jesus veio para nos dar vida em abundância? A abundância fala de que?

Dá pra perceber que é um pouco complexo né? De fato, confesso que às vezes fico meio confuso. Mas há algum problema na prosperidade?! Penso que não. Mas a ênfase que tem se dado a ela nestes dias, tanto do lado dos que a defendem, como daqueles que a vêem de forma nociva, é grande, e devemos pensar nisto.

Repito: Não sou contra a prosperidade. Sou contra e bato de frente com quem prega isto demais, dá uma ênfase absurda a tal, e o modo errôneo de como se a prega, distorcendo as escrituras e fazendo dos crentes, inseguros quanto sua caminhada na fé, escravos de campanhas e viciados em bênçãos.

Baseados no versículo do Evangelho Segundo João, cap. 10 versículo 10: “O diabo veio para matar, roubar e destruir, eu vim para que tenha vida e a tenham em abundância”, entre outros exemplos da bíblia retirados de personagens que foram bem sucedidos, como José, Daniel, Davi, Ester, Jó e outros, muitos líderes tem enfatizado que Deus quer nos abençoar ricamente, financeiramente. Não vejo problema na bênção para enriquecer, afinal Deus é Senhor e Soberano e a bíblia no diz que Deus quer nos abençoar. Isaías 59:1 “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir.” Também diz que Ele tem misericórdia de quem ele quiser e não terá misericórdia de quem não quiser. Deus é Soberano.

Acredito e vejo que o problema é na ênfase em demasia sobre este assunto, e aqui começa a divisão de pensamentos. Alguns acreditam que todos podem ser prósperos no âmbito financeiro – vale lembrar que prosperidade à luz da Bíblia não é dinheiro e tampouco enfatiza somente este “lado da moeda”, prosperidade à luz da Bíblia é mais que isso -, e outros defendem que ter riquezas demais é nocivo à fé cristã, talvez baseados em alguns argumentos da Regra de Agostinho que defendia que a “Pobreza, Castidade, Obediência, o desapego do mundo, a repartição do trabalho, o dever mútuo de superiores e irmãos, caridade fraterna, a oração, a abstinência comum e proporcional à força do indivíduo, o cuidado dos doentes, o silêncio, a leitura e a vida em fraternidade”, devia ser observado pelos monges e comunidades da igreja católica, outros indignados com tantos escândalos que temos visto no meio “gospel”, de tantos e tantos lideres usando do dinheiro dos fiéis para comprar aviões e viver uma vida nababesca.

E o que vemos hoje? Muitos dizendo que por sermos filhos do Rei temos direito às bênçãos materiais, usando de “campanhas para a prosperidade”, “x passos para alcançar a vitória financeira” – temos até bíblia impressa sobre “Batalha Espiritual e Vitória Financeira” – outros usam o livro de Malaquias do Velho Testamento, no capítulo e versículo que você aí já sabe de cor, (nem preciso dizer), dizendo que se não dizimarmos o devorador entrará e ceifará nossos bens, nossa saúde, nossa paz e etc., causando um “terrorismo” nos fiéis, tal qual era na época da Inquisição em relação às indulgências. Hoje porém as indulgências mudaram o foco, já que para conseguir a bênção do Senhor é necessário dizimar e ofertar, para que Ele repreenda o diabo (vulgo devorador).

Bem resumidamente, expostos os dois lados, consideremos algumas questões e vamos refletir sobre elas:

Não há fundamento bíblico para apregoar um agir de satanás sobre os bens dos crentes baseado em Malaquias, pois o contexto do livro era para os sacerdotes e a nação de Israel – (neste ponto sugiro a você estudar sobre o livro).

Realmente Jesus não disse que devemos abolir os dízimos e ofertas, mas que devemos observá-los sem esquecer outras coisas como misericórdia, graça, estender a mão ao necessitado – foi a lição que deu aos fariseus – haja vista que dízimo e oferta se tornou Lei em Israel por causa da tribo de Levi que servia ao Senhor; e como a Lei se resume em dois mandamentos “Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, entendemos que o cumprimento da lei se baseia no amor ao Senhor e ao próximo; assim iremos fazer o que é certo perante o Senhor e também dizimar e ofertar, pois por meio destes atos, pastores em tempo integral e famílias menos abastadas na igreja serão sustentados.

Que o Senhor quer abençoar a todos é verdade, mas isto não significa que todos serão ricos ou prósperos financeiramente. Temos vários casos. Um exemplo forte foram os patriarcas Inácio e Policarpo – primeira geração de pais da Igreja pós-apóstolos. O relato da morte de Inácio é impressionante, na época do seu martírio: “Agora começo a ser um discípulo. Não me interesso em nada pelo que é visível ou invisível, para que apenas possa conquistar Cristo. Que sobrevenham a fogueira e a cruz, que venham as feras selvagens, que venham a quebra de ossos e a dilaceração dos membros, que venha a trituração do corpo inteiro, que assim seja. (…) Eu sou o trigo de Cristo: serei triturado pelos dentes de animais selvagens para poder ser considerado pão puro.”  –  FOXE, John. O Livro dos Mártires., São Paulo: Mundo Cristão, 2003, p.17-19.

No livro de Hebreus 11:35-37 diz: (…) andaram errantes, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitadas, afligidos e maltratados”. Um contraste e tanto com bênçãos materiais de prosperidade não?!

Outro relato é dos reformadores em relação a benesses materiais, dita aqui por Calvino, observe:

Portanto para que não se prometam profunda e segura paz nesta vida, ele permite que sejam freqüentemente inquietados e molestados ou por guerras, ou por tumultos, ou por assaltos, ou por outros malefícios. Para que não anelem com demasiada avidez às riquezas aleatórias e instáveis, ou se arrimem naquelas que possuem, ora pelo exílio, ora pela infertilidade do solo, ora pelo fogo, ora por outros modos, os reduzem à pobreza, ou pelo menos os mantém em condição moderada.

Como mencionado antes, nem todos podem ser ou serão ricos, estão nos fatos da nossa vida contemporânea. Quantos irmãos nós conhecemos que vivem com dificuldades financeiras, que não prosperaram ou não prosperam no financeiramente? Entretanto são muitos mais prósperos que nós, pois não reclamam da vida e são felizes e contentes com o que tem.

1 Timóteo 6:8 “Tendo, porém, sustento, e com o que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes.”

Eis um motivo porque nem todos podem enriquecer: Deus trata cada um de maneira diferente. Do contrário, todos os crentes em Cristo seriam ricos. Ou não?!

Um ponto que devemos nos preocupar de como esta sendo pregada a prosperidade, é que podemos recebê-la através de sacrifícios financeiros, como se fosse uma barganha com o Altíssimo, como se o poder da bênção residisse em nós e não nele. Assim, cada crente faz o seu papel, pois podemos ser prósperos mediante sacrifícios, campanhas e etc.

Isto me faz pensar o seguinte: “Se eu quero prosperar, faço sacrifícios, dízimo – pois o devorador pode estar à minha porta – vou aos cultos, participo de campanhas.” Soa muito individualista não?! Daí a pergunta: E a vida em comunidade? De ofertamos também na vida de irmãos que não são tão “prósperos”? Agimos igualmente aos fariseus, praticaram a Lei e omitiram outras coisas. Compreende? O individualismo aqui faz-nos esquecer dos outros. Mas dizimar e ofertar é bíblico e devemos fazer com alegria, pois o Senhor ama a quem assim o faz. Também, lembremos da lei da semeadura. O que semear pouco, pouco colherá, o que semear muito, muito colherá.

Se entendermos os mandamentos de Deus, o amarmos, o obedeceremos e seremos prósperos. Pois cumpriremos a Lei. Atrelado a isto, devemos entender também que todo o obreiro é digno do salário. Assim, o sacerdote que vive 24 horas em função de servir aos irmãos e ministrar a Palavra é digno de salário, haja vista que a Palavra diz isto. 1 Timóteo 5:17-18 “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário.”

O dilema encontra-se nos pastores que infelizmente vivem uma vida nababesca, enquanto outros passam necessidades. Será que este último, não tem fé, ou Jesus não deu uma vida de abundância para ele? A resposta está nas atitudes dos fiéis e na falta de compreensão do que é dízimo e oferta e qual o seu propósito. Além do que, fica a pergunta: Onde está o amor?

Por fim, pois não quero me prolongar muito, quero levar-nos ao fim desta reflexão, fazendo as seguintes ponderações, embora haja muito ainda pra ser dito.

As igrejas não cresceram, e tampouco o Evangelho de Cristo. Primeiro porque o se prega atualmente não é Evangelho e segundo elas não cresceram, de fato incharam, pois na última década devido à ênfase à prosperidade muito estão vindo a Cristo (não se rendendo a Cristo por seu estado pecaminoso). As bênçãos infelizmente são o foco!! Estamos viciados nelas. Infelizmente.

Quantos crentes com mais de 20 anos na fé, estão agindo como crianças mimadas, que ao menor sinal de falta de dinheiro, de prosperidade, de doença da família, se queixam com o Senhor e oram como se dessem ordens a Ele?! “Senhor está na tua palavra, em Malaquias 3:10, portanto eu decreto, pois eu sou dizimista…”

Quase ouço o Senhor falar:

 “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?” Romanos 9.20

Às vezes fico imaginando se estourasse uma perseguição contra os cristãos evangélicos hoje, quantos sobrariam nas igrejas? Quantos resistiriam? Quantos confiaram em Cristo, mesmo na eminência de morte, e não em suas posses?

Precisamos entender que não levaremos nada para a eternidade. Precisamos lembrar  disto, pois não podemos estar seguros em nossas posses. Tudo o que temos, seja pouco ou muito é para fazermos missões, ajudar os irmãos, assalariar pastores que cuidam de nós e não viver uma vida cheia de pompas e bens. Que vivamos em temor para não sermos confundidos e embaraçados por coisas desta vida. Nossa riqueza ou nossa pobreza aqui não são nada comparadas a Cristo. Tudo é esterco, como disse Apóstolo Paulo.

Reflitamos, analisemos e leiamos a Palavra!

93ª Abençoados seam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz!  Cruz! E não há cruz.

94ª Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.

95ª E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas.

Martinho Lutero

Em amor e na Paz de Cristo a todos

Anderson Alcides

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